arte na Alemanha

Por que artistas deveriam aprender (urgente!) alemão

Pintura, ilustração, fotografia, literatura, escultura, dança, teatro, cenografia, música, figurinismo, videoarte … todo artista deveria aprender alemão – e não é (só) para aprender a filosofar.

Em princípio, sou da opinião de que artistas deveriam aprender línguas estrangeiras em geral – qualquer que seja ela.

Uma nova língua mostra – e até mesmo impõe – um novo jeito de pensar e ver o mundo. Mais do que apenas substituir palavras dentro de uma frase, o aprendizado de uma língua estrangeira te obriga a contornar lacunas de vocabulário, reordenar a sequência das ideias na fala e conseguir expressar seu pensamento com os meios limitados disponíveis, tanto na gramática quanto no vocabulário.

Alemão: língua de pensadores e poetas?

No caso do alemão, existe ainda uma atmosfera mística extra de intelectualidade, talvez por conta do conhecido verso de Língua, de Caetano Veloso: »Só é possível filosofar em alemão«.

Bem, preciso deixar claro que discordo muito disso. Na minha opinião, não há muita utilidade nem fundamento em ficar elogiando os supostos benefícios intelectuais de certas estruturas gramaticais particulares ou de nuances de sentido ultraespecíficas desta ou daquela palavra alemã.

É claro que o esforço de pensar o que exatamente seria uma alegria-antes-da-hora ou uma saudade-das-lonjuras pode dar um empurrãozinho para dar aquele clique criativo. Mas, convenhamos, você pode fazer isso com qualquer idioma – inclusive com a sua própria língua materna!

De todo modo, não vou insistir nessa mitologia de que o alemão seria uma língua para ter ideias filosóficas e artísticas superiores. Ao invés de se afundar infinitamente nessa ideia sem fundamento, é melhor você prestar nessas outras vantagens, bem mais concretas e decisivas.

tipos metálicos

Acesso a fontes primárias

Coletar e assimilar referências é fundamental para quem trabalha com arte, seja em literatura, cinema, fotografia, música ou artes visuais em geral.

»Nada se cria do nada« pode soar um bordão bem surrado. Quem cria, sabe melhor do que ninguém como é importante entrar em contato com novas fontes, conhecer outras produções e, enfim, mergulhar nesse oceano onde as ideias fluem. Nesse ponto, aprender alemão irá ampliar consideravelmente seu universo de referências.

É claro que sempre haverá material disponível em outras línguas (inglês ou espanhol, por exemplo) sobre artistas alemães. O ponto é que as traduções geralmente tendem a privilegiar o que é canônico.

É bem mais difícil encontrar material traduzido sobre artistas ditos menores – mesmo que eles nem sejam tão »menores« assim dentro da Alemanha. Limitar seu acesso apenas ao material em inglês significa também se restringir apenas ao cânone e prender-se às mesmas fontes de todo mundo não te levará muito além em termos de criatividade.

Saber alemão pode te dar acesso a produções menos conhecidas que, com sorte, mostrarão a você novas possibilidades ignoradas por obras de maior circulação.

anotações artísticas
[Fonte: Foto de Gene Wilburn sob Licença CC BY-NC-ND 2.0]

Ambiente cultural

Muito além de uma questão de idioma, os países de língua alemã foram o berço de grandes nomes da história da arte em geral. É impossível não pensar no impacto causado pela Bauhaus na arquitetura ou pelo dodecafonismo de Schoenberg na música.

E para constatar isso, não basta apenas afirmar que a Alemanha deu ao mundo nomes como Bach, Brahms, Beethoven, Karajan, Gropius, J. G. Herder, Pina Bausch, Tucholsky, Brecht entre tantos outros.

Interessa também saber que o apoio para a produção artística é bem institucionalizado por lá. Por toda parte, disseminam-se as chamadas Kunstakademien (academias de arte). A maioria delas tem sólida tradição e abrange linguagens muito diversas, que vão desde as bildende Künste (pintura, gravura, escultura, etc.) até as artes performáticas (teatro, pantomima, dança, música) sem deixar de fora outras atividades da produção artística como cenografia, maquiagem, iluminação de palco etc.

O mais interessante das Kunstakademien alemãs é a visão marcada de arte como técnica, e não como algo que simplesmente brota do chão ou cai do céu quando a »inspiração« dá as caras.

Apesar de sempre haver um ingrediente subjetivo no trabalho artístico, esses cursos buscam aprimorar de maneira intensa as competências técnicas do estudante. Mais do que obter um resultado interessante por mero acidente, o foco das Akademien é capacitar os artistas em formação a ter consciência crítica da linguagem que trabalham.

O trabalho focado com a técnica – seja ela musical, dramática ou visual – é apenas uma das vantagens dessa forte institucionalização. Entre outros pontos positivos estão o calendário estruturado de exposições e apresentações, publicações de periódicos de divulgação e programas de patrocínio com empresas de grande porte.

pintura abstrata
[Fonte: Foto de Mark Chadwick sob Licença CC BY-NC-ND 2.0]

Residências artísticas

Se você já está no meio da carreira, não está na idade ou não tem mais interesse em cursar uma graduação em artes, ainda há também a possibilidade de concorrer a uma vaga nas residências artísticas (Künstlerresidenz) da Alemanha.

Uma bolsa mensal (Stipendium), um lugar para dormir em um casarão clássico ou um antigo castelo, um espaço de trabalho adequado e um monte de outros artistas para dialogar: é isso que te aguarda em uma Künstlerresidenz.

A ideia de não precisar aceitar um emprego chato e indesejável só para poder pagar as contas é um dos maiores atrativos dos programas de residência na Alemanha. Afinal, tudo o que se precisa às vezes é de um tempo de reclusão para poder criar.

Outro ponto interessante é poder conciliar esse isolamento com o intercâmbio com a cultura de outro país e com outros artistas. Essa estufa criativa só pode ser mantida graças à concessão de bolsas periódicas, que podem durar de um a doze meses.

Embora alguns programas aceitem conhecimentos de inglês como pré-requisito, a maioria deles exige algum nível de alemão. Vamos combinar que não dá para perder uma chance dessas só por preguiça de estudar o idioma!

E se você acha que uma vaga dessas está reservada apenas aos semideuses que herdam sangue dourado de artista, fique sabendo que o Deutscher Akademiker Austauschdienst (DAAD) abre edital para artistas todo ano. Por exemplo, o próximo edital do DAAD será publicado no segundo semestre de 2016 e pagará 750 Euros mensais, além de passagem aérea e seguro-saúde. Dá tempo de ir se preparando!

Se você achou pouco, não desanime. Os editais abertos pelas próprias Künstlerresidenzen costumam pagar bem mais.

Por exemplo, a Achterhaus Atelier de Hamburg paga 1000 Euros por mês, além de oferecer acomodação e financiar a viagem de ida e volta. Já a Villa Aurora de Berlim costuma pagar 1800 Euros mensais por um período máximo de 3 meses.

Nada mal, não?

ensaio
[Fonte: Pixabay sob Licença CC0]

Dicas para candidatura

Bem, se você se entusiasmou e está pensando na chance concreta de estudar arte na Alemanha, aí vão algumas dicas finais:

  • Estude alemão: … e comece desde já! Até conseguir de fato sua vaga, você já estará com um bom nível no idioma, o que pode facilitar tanto a interação com a instituição quanto nas praticidades do dia-a-dia.
  • Checar informações: tudo o que coloquei aqui sobre academias e residências são apenas indicações genéricas. Verifique as informações exatas sobre data-limite, condições, documentos para candidatura e valor da bolsa para a residência que mais te desperta interesse.
  • Candidatura internacional: Parece óbvio, mas muita gente esquece que os avaliadores não são obrigados a conhecer de antemão o que é IED, ECA, EAD ou qualquer outro dado implícito sobre a sua formação. Então facilite a sua aprovação e dê o máximo de informações concretas para que o selecionador tenha uma noção real da sua experiência.
  • Arrume o portifólio: um dos requisitos incontornáveis é enviar uma amostra do seu trabalho e – bem – disso você já sabia. Mas sempre tem aquela pessoa que dorme no ponto, deixa o portifólio parado e depois sai correndo às pressas para preparar aprontar coisa para concorrer à vaga. Não seja essa pessoa – combinado?

Onde encontrar residências artísticas e academias de arte?

Você está gostando da ideia mas não sabe bem por onde começar?

Então pode colocar a angústia de lado e procurar com paciência nessa lista completa de residências artísticas disponibilizada pela Transartists. Ali, você pode procurar por país (não apenas na Alemanha!) e também por linguagem (composição, instrumento, têxtil, gravura, aquarela, pantomima, dança, artes circenses, etc.).

essa lista aqui da BerlinArtLink reúne apenas as residências localizadas em Berlim – uma cidade que almeja abertamente o título de »capital mundial da criatividade«.

Mas se você está procurando um curso de graduação ou master em alguma Kunstakademie, é melhor conferir essa seleção dos institutos alemães mais renomados. E não custa nada lembrar que todo o ensino superior na Alemanha é gratuito.

Bom, agora é deixar as desculpas e a preguiça de lado e aprender alemão de uma vez – nem que seja naqueles intervalos em que você não está dançando, cantando, tocando, ensaiando, pintando, colorindo, ilustrando, filmando, esculpindo …

aprender alemão

8 comentários a “Por que artistas deveriam aprender (urgente!) alemão”

  1. Caramba, que interessante! Eu não sabia nada sobre essas Academias de Arte alemãs. Sou artista e essa informação me é muito útil, mesmo! Haha obrigada!

  2. Alemão é realmente muito importante na música. Lembro quando toquei com a orquestra do festival em Curitiba uma sinfonia de Resultados da pesquisa Mendelssohn, muitos termos em alemão! Até quem falava a língua ficou confuso! hahaha

    1. Pois é! Se for considerar a parte de pesquisa histórica e análise escrita em alemão, aí o universo de possibilidades fica infinito! Sem contar aquele prazerzinho que dá entender os textos dos madrigais e das óperas 🙂

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