Wort des Jahres

»Postfaktisch« é eleita Palavra do Ano de 2016

O júri da Gesellschaft für die deutsche Sprache (GdfS) elegeu »postfaktisch« em primeiro lugar como Palavra do Ano de 2016.

A escolha do termo vem chamar atenção para as drásticas transformações políticas testemunhadas.

Uma escolha precisa

A palavra »postfaktisch« é um neologismo criado para o termo correspondente em inglês post truth (algo como “pós-verdade”) que, aliás, também foi eleito como Palavra do Ano pelos Dicionários Oxford.

A ideia do »postfaktisch« é o comportamento social de negar os fatos para reafirmar os próprios sentimentos e crenças sobre determinado tema político.

Segundo o texto explicativo publicado pela GdfS, o sentimento de revolta contra »todos aqueles que estão ali« leva cada vez mais pessoas a ignorar dados concretos e até mesmo acreditar em mentiras escancaradas, como foi o caso da campanha presidencial de Donald Trump nos Estados Unidos.

Apesar de não constar oficialmente nos dicionários de língua alemã mais reputados, o termo pode ser encontrado amplamente na mídia alemã e nas redes sociais.

O canal do Zahlensammler no Twitter desmonta algumas inverdades sobre os números sobre criminalidade entre imigrantes publicados pelo magazine Welt.


Já o canal televisivo ZDF publicou na sua conta do Twitter esse infográfico mostrando como é o »postfaktisch« segundo cada partido político alemão:

 

Liderado pelo humorista Jan Böhmerman, o satírico NEO Magazin Royale reagiu com ironia hipster dizendo que já usava o termo »postfaktisch« antes de ser mainstream:

O que é o Wort des Jahres?

Realizado anualmente pela Gesellschaft für die deutsche Sprache (Sociedade para a língua alemã), o concurso Wort des Jahres (Palavra do ano) seleciona uma lista das dez palavras mais relevantes durante o ano.

A ideia não é eleger as palavras mais usadas por um critério puramente quantitativo, mas sim aquelas que mais marcaram os acontecimentos do ano.

Palavra do Ano de 2016: a lista das 10 mais votadas

Além do primeiro lugar conquistado pelo termo »postfaktisch«, as outras nove palavras escolhidas também dizem muito do que foi esse ano de 2016 visto pelas lentes da linguagem midiática.

1) postfaktisch

2) Brexit (Britain + Exit)

Um caso concreto de política pós-factual: omitindo e ignorando informações concretas sobre a economia britânica e europeia, os partidários do Brexit conseguiram emplacar em referendo popular a vitória da saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Ao final de contas, as consequências dessa decisão eram bem mais graves do que o imaginário popular previu no momento da votação e colocou um grande ponto de interrogação para o mundo: a União Europeia ainda faz sentido?

3) Silvesternacht (Noite de revéillon)

O termo foi amplamente utilizado para designar a série de ataques e estupros em massa ocorridos em Köln durante a passagem de 2015 para 2016.

4) Schmähkritik

Refere-se a uma crítica não-objetiva que visa apenas difamar alguém. O episódio que trouxe o termo à tona foi o poema satírico escrito pelo humorista Jan Böhmerman descascando publicamente o presidente turco Erdogan, que ganhou a antipatia pública na mídia alemã por sua postura reacionária.

5)Trump-Effekt (Efeito Trump)

Espalhar inverdades proclamadas, desfilar preconceito e discurso de ódio e, de quebra, vencer as eleições presidenciais americanas. O efeito Trump é praticamente um mistério a ser resolvido pela ciência.

6) Social Bots (robôs sociais)

São softwares programados para executar ações repetitivas e interagir com humanos em redes sociais. O uso dos social Bots na publicidade e nas campanhas políticas deflagrou uma crise profunda sobre formação de opinião pública, influência de comportamento em massa e credibilidade na internet.

7) schlechtes Blut (sangue ruim)

O termo foi utilizado pelo presidente turco Erdogan para se referir a deputados alemães de origem turca que deliberaram por classificar como genocídio o massacre do povo armeno pelos turcos ocorrido entre 1915 e 1923. A GdfS vê com preocupação o retorno do uso de Blut (sangue) em contexto político para se referir à ideia de raça, como foi cunhado pelo discurso social do período nazista.

vocabulário em alemão

8) Gruselclown (palhaço aterrorizante)

Vestir-se de palhaço e sair aprontando por aí já sempre foi uma tradição de Halloween. Mas, em 2016, as brincadeiras extrapolaram os limites. Com a enxurrada de vídeos na internet de palhaços aterrorizando motoristas e às vezes até machucando pessoas (ou sendo machucados por elas), os Gruselclowns acabaram ganhando um destaque inusitado nesse ano.

9) Burkiniverbot (proibição do Burkini)

A polêmica se deu na França, quando agentes policiais exigiram que uma muçulmana retirasse seu burkini, vestimenta de praia que recobre o corpo todo. O episódio desencadeou discussões sérias sobre a proibição de peças de vestuário típicas de determinadas correntes islâmicas encaminhada por políticos na França e também na Alemanha.

leitura em alemão

10) Oh, wie schön ist Panama! (Oh, como é belo o Panama!)

Originalmente típica de uma historinha infantil alemã, a frase ganhou novos sentidos com a revelação dos Panama Papers, que traziam evidências escandalosas de esquemas de lavagem de dinheiro e sonegação de impostos envolvendo figurões da política e do mundo corporativo de diversos países no mundo, inclusive da Alemanha e do Brasil.

 

palavra do ano na Alemanha

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