memória da escola

O que os alunos guardam de seus professores?

Decidi incluir aqui no blog uma tradução própria de um texto que eu já tinha lido há um bom tempo e que passou a fazer parte da minha filosofia pessoal. Se você também dá aulas, é bom dar uma olhada.

Seguindo o velho lema do »tradutor traídor«, decidi voluntariamente fazer algumas intervenções tradutórias. Aquele que ficar extremamente revoltado, pode muito bem consultar o texto original [já que todo mundo acha inglês »fácil« mesmo].

O original se refere claramente a um professor de ensino regular, porém fiz algumas adaptações [especialmente a tradução de kids por »alunos«] de modo a contemplar também professores de idiomas. Além disso, fiz pequenos ajustes de pontuação de modo a acomodar a organização das sentenças em uma estrutura mais coloquial no português.

Com o título What students remember most about teachers, o texto se dirige a professores sobrecarregados por cobranças externas e exigências internas e questiona de maneira tocante o que é que realmente importa em um bom professor.

aulas de idiomas

O que os alunos guardam de seus professores?

Querido Jovem Professor Ali No Pátio,

Eu te vi quando você passou correndo por mim no refeitório da escola apressadíssimo e voando para comer alguma coisa antes de que o toque do sinal chamasse os alunos de volta para dentro da sala. Percebi que seus olhos demonstravam tensão. Sua testa estava cheia de marcas de cansaço. Perguntei como estava o seu dia e você suspirou.

»Ah, bem …,«, você respondeu.

Mas eu sabia que as coisas não estavam nada bem. Eu percebi que o stress estava consumindo você. Eu poderia te dizer que sua pressão cardíaca estava subindo. Aí, eu olhei para você e tomei a decisão proposital de te parar bem ali. Para perguntar como as coisas estavam de fato indo. Será por ter visto em você um reflexo de mim mesmo que eu decidi aproveitar a ocasião?

Você me contou o quanto ocupado estava e quantas coisas havia para fazer. O quão pouco tempo havia para terminar tudo. Eu escutei. E depois eu te disse o seguinte:

Eu te disse para se lembrar de que, no final do dia, não é o plano de aulas que conta. Não são essas coisas que nós, professores, fazemos – os trabalhinhos artísticos que montamos, as histórias que contamos, os papeis que laminamos. Não, não é nada disso. Não é isso o que mais importa.

E quando eu olhei para você, carregando toda aquela preocupação debaixo de toda aquela sobrecarga, eu disse que é tudo uma questão de estar ali para os seus alunos.

Porque no final do dia, a maioria dos alunos não irá lembrar dos seus planos de aula sensacionais que você montou. Eles não irão se lembrar do quão organizado é o seu diário de classe ou do quão alinhadas e impecáveis estavam as carteiras.

Não, eles não irão se lembrar da decoração fantástica que você planejou.

Mas eles irão se lembrar de você.

Sua gentileza. Sua empatia. Seu cuidado e sua preocupação.

Eles irão se lembrar que você teve tempo de ouvi-los. Que você parou para perguntar a eles como eles estavam. Como eles realmente estavam. Eles irão se lembrar das histórias pessoais que você contou sobre a sua vida: sua casa, seus bichinhos de estimação, seus filhos. Eles irão se lembrar da sua risada. Eles irão se lembrar que você se sentava e conversava com eles enquanto eles tomavam lanche.

Porque no final do dia, o que realmente importa é você. O que importa para essas crianças que ficam sentadas em pequenas carteiras escolares com as pernas apertadas debaixo das coxas sob mesas geralmente pequenas demais – o que mais importa para eles é você.

É você a diferença na vida deles.

E quando eu olhei para você com lágrimas em seus olhos e as emoções vindo à tona, eu disse gentilmente a você para parar de se sacrificar tanto – eu também te lembrei que as suas próprias expectativas eram, em parte, a raiz do seu stress. Porque nós que realmente nos importamos somos muito mais rígidos com nós mesmos do que nossos alunos estão dispostos a ser.

Dizemos para nós mesmos que não somos o suficiente. Nós nos comparamos com os outros. Nós trabalhamos duro com esperanças de conseguir o plano de aulas perfeito. As atividades mais dinâmicas. A aula mais empolgante. As decorações mais brilhantes e mais impecáveis.

Porque queremos que nossos alunos pensem que somos os melhores naquilo que fazemos e acreditamos que esse status de excelência é alcançado simplesmente pelo fazer. Mas esquecemos – e bastante – que excelência se atinge mais facilmente pelo ser.

Ser acessível.

Ser gentil.

Ser empático.

Ser transparente.

Ser verdadeiro.

Ser reflexivo.

Ser simplesmente nós mesmos.

E todos os alunos que eu conheço que agraciaram professores com os aplausos mais calorosos – esses alunos diziam que aqueles professores eram aqueles que se importavam.

Está vendo? Os alunos conseguem vislumbrar a verdade da questão. E ainda que as coisas legais possam entretê-los por um momento, é a empatia constante que os mantêm conectados a nós. São as relações que construímos com eles. É o tempo que investimos. São todas as pequenas maneiras de pararmos e demonstrarmos preocupação.

É o amor que nós compartilhamos com eles: amor pelo aprendizado. Pela vida. E, o mais importante de tudo, pelas pessoas.

E enquanto isso, nós continuamos a nos sacrificar pela excelência em nossa profissão nesses dias de apertos fiscais e grandes exigências dos superiores hierárquicos chegando até nós – rapida e impiedosamente. Nós precisamos manter o prumo. Por nós mesmos e por nossos alunos. Porque o toque humano é o que realmente importa.

É você – o professor deles – o que realmente importa.

Então volte para a sua sala e observe de verdade. Observe os comportamentos passados, os problemas e as preocupações, por mais massacrantes que possam ser. Olhe além da pilha de papel em cima da sua mesa, a montanha de e-mails na sua caixa de entrada. Olhe além das salas de aula dos professores mais experientes. Olhe. E você verá que está bem ali – dentro de você. A capacidade de causar impacto. A chance vital de fazer a diferença na vida de um aluno. E você pode fazer isso bem agora.

Bem aí onde você está, exatamente como você é.

Porque tudo o que você é exatamente agora é absolutamente tudo o que você precisa ser para eles hoje. E quem você será amanhã depende muito de quem e do que você decide ser hoje.

Está dentro de você. Eu sei que está.

Carinhosamente,

Aquele Outro Professor Ali No Pátio

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