Motivo #09: Tempos verbais mirabolantes do inglês

Por esses dias, tive dores de cabeça infernais sobre como usar o present perfect em inglês.

Consultei o Practical English Usage da Oxford e encontrei algo assim:

“Nós normalmente usamos o present perfect quando estamos pensando sobre eventos passados junto com seus resultados presentes. Contudo, é comum darmos preferência a um tempo verbal passado quando identificamos a pessoa, coisa ou circunstância responsável pela situação presente (por que estamos pensando na causa passada e não no resultado atual)”

Fala sério – e ainda tem gente dizendo que o alemão é uma língua difícil.

Talvez você já não se lembre mais das dificuldades épicas que teve com tempos verbais quando aprendeu inglês – provavelmente há um bom tempo atrás.

Aliás, esse costuma ser um dos maiores pecados de saber: esquecer-se com muita velocidade de como as coisas eram antes de ter aprendido.

Mas tente fazer um esforço extra para reviver o quebra-cabeças lógico de diferenças entre o simple present, present perfect e o simple past. Rememore principalmente a nomenclatura pirada que usa o termo “present” para designar eventos que ocorreram no passado. Ou então quando é melhor utilizar o present perfect simple ao invés de present perfect progressive.

Agora seja sincero: você sabe explicar o por quê disso tudo?

Você realmente acha fácil o fato de que o mesmo tempo verbal pode ser usado tanto para eventos ocorridos em um passado indeterminado quanto para eventos presentes iniciados no passado? Você considera lógico classificar essas duas situações com o mesmo rótulo de “present”?

Tempo linguístico
[Fonte: Foto de becosky sob Licença CC BY-SA 2.0]

Um pouco mais sobre verbos

Nesse momento, você pode estar se perguntando: “O que faz um verbo? O que é tempo verbal? Por que preciso saber de tudo isso afinal de contas?”

São dúvidas totalmente pertinentes. Muitas vezes, usamos essas nomenclaturas gramaticais sem entender muito bem o que elas querem dizer ou mesmo por que elas são necessárias.

Entre suas diversas funções, o verbo codifica algumas informações gramaticais importantes:

  • tempo
  • aspecto
  • modo
  • voz
  • pessoa
  • número

Para entender especificamente as conjugações verbais que quero mostrar aqui, vamos ficar apenas com os dois primeiros tópicos: tempo e aspecto.

Tempo verbal

Só contando por cima e sem entrar em muitos detalhes, o inglês tem 3 tempos verbais:

  • past
  • present
  • future

Bom, até aí, não há muita novidade. Assim como o alemão e as demais línguas da Europa Ocidental, o inglês não foge muito disso.

Além disso, precisamos considerar também o aspecto verbal.

Aspecto verbal – o que é isso?

Você não sabe o que diabos é aspecto verbal?

Tudo bem, nada de pânico.

Se você não estudou linguística, letras ou nunca se aventurou em discussões mais profundas sobre estruturas gramaticais, é absolutamente normal que você nunca tenha ouvido falar disso.

Mesmo que você não tenha pretensões de atingir esse nível de especificidade, é interessante conhecer o conceito de aspecto verbal – ele esclarece muito as coisas!

Só para ficar com uma das muitas definições, cito a explicação do linguista Ataliba de Castilho – que, aliás, dedicou sua tese de doutorado inteira para o aspecto verbal em português:

O aspecto é a visão objetiva da relação entre o processo e o estado expressos pelo verbo e a ideia de duração e o desenvolvimento.

Para simplificar um pouco bastante as coisas, pense que o aspecto indica se o evento expresso pelo verbo é durativo [“a água fervia”] ou finalizado [“a água tinha fervido”].

Aspectos verbais do inglês

Em uma consulta rápida a manuais e sites, descubro que o inglês diferencia quatro aspectos verbais:

  • simple
  • continuous [às vezes também chamado de progressive, conforme a fonte que você consultar]
  • perfect
  • perfect continuous

Cruzando essas variáveis, temos então doze formas verbais possíveis diferentes:

english verbal tenses
[Fonte: Easy Pace Learning]

Sim.

São 12 formas verbais diferentes.

E isso só em uma contagem bem simplificada e grosseira que já exclui os outros modos verbais [subjuntivo por exemplo], vozes verbais [passiva, por exemplo] e combinações com verbos modais [tipicamente must, should, can, may, ought to – mas também pode incluir outros menos usuais].

O mesmo site Easy Pace Learning traz uma outra tabela expandida. Dá uma olhada:

[Fonte: Easy Pace Learning]
[Já reparou como tabelas às vezes complicam mais do que facilitam?]
A última linha dessa tabela inclui também o esquisito famoso futuro construído com a estrutura ” to be + going + [verbo no infinito]”. Se você reparar bem e for rigoroso na observação, perceberá que, na verdade, essa forma está conjugada no present continuous. Compare com a primeira tabela que coloquei mais acima. A construção é absolutamente idêntica:

verbo “to be” conjugado no presente + verbo principal com a terminação “-ing”.

Por que diabos então ela é considerada uma forma de futuro?

Uma pedra no meio do caminho

Bom, a resposta é ao mesmo tempo simples e complexa. Tudo é uma questão de distinguir forma gramatical de seu uso nas situações reais de comunicação.

A descrição da forma pode ser feita em termos puramente estruturais. Já o uso sempre faz referência à maneira como as pessoas empregam aqueles tempos verbais.

Está achando complexo? Quer um exemplo concreto?

Dê uma olhada nessas ferramentas ultra-avançadas:

Idade da Pedra
[Fonte: Foto de Don McCullough sob Licença CC BY NC 2.0]
Descrever a forma dessas ferramentas pode ser até que simples: são apenas pedras.

Agora tente descrever os usos que os homens das cavernas davam para elas. Elas podem funcionar como pontas de lanças, acender fogo, quebrar a casca de frutos, riscar paredes – enfim, um bom número de possibilidades sem contar aquelas que não conseguimos deduzir olhando apenas para sua forma.

Forma e uso

Agora voltando para a gramática.

Olhe de novo a primeira tabela que coloquei nesse post. Tudo o que ela apresenta é a construção formal dos tempos verbais. Agora olhe novamente para ela e tente responder essa pergunta: em quais situações eu deveria usar qual tempo verbal?

Não perca seu tempo procurando por muito tempo. Essa informação não está ali. E ponto.

O que torna os tempos verbais do inglês mirabolantes não é tanto a forma ou a estrutura morfológica deles, mas sim a maneira de usar. Isso responde às perguntas que fui deixando em suspenso até aqui.

Uma coisa é aprender a conjugar os verbos em inglês da maneira correta. Outra coisa bem diferente é captar quando é o melhor momento para usar cada tempo verbal, qual é a relação de sentido entre eles, etc.

Agora que você já olhou 72905749 2 vezes a tabela sobre as formas verbais do inglês, veja um exemplo [há muitos possíveis!] de tabela que descreve a função deles:

Usage of verb tenses in english
[Fonte: Easy Pace Learning]
Por ora, não vou me aprofundar muito nos detalhes dos usos de cada forma.

Mas você pode dar uma olhada por cima e tentar explicar o significado de cada um, especialmente do future continuous, past perfect continuous, future perfect continuous – que tem nada menos do que quatro verbos diferentes [“will have been eating“]

E aí, achou fácil?

Pois bem.

Sem uma forma correspondente em nossa língua, tudo o que resta é fazer descrições mirabolantes para indicar as condições específicas para usar esse tempo verbal e isso costuma ser um problema.

Qualquer um que já se aventurou em ler uma gramática ou manual de língua estrangeira sabe como essas explicações podem soar realmente estranhas. Ironicamente, as descrições de sentido não fazem muito sentido.

Para concluir

Quando você compara com o alemão, o inglês tem um número ligeiramente maior de formas diferentes – principalmente por conta do aspecto verbal.

Se você passar algum tempinho pensando nessas coisas, certamente conseguirá decifrar os usos dos tempos verbais no inglês. Mas uma coisa é certa: há nuances de significado que tornam a tarefa bem mais complicada do que parece.

O recado final aqui é que às vezes precisamos relativizar nossa ideia do que seja a “dificuldade” de uma língua. Nesse ponto específico, o inglês não é mais simples do que o alemão. No máximo, eles têm o mesmo grau de complexidade. Mas muita gente ainda insiste em ficar destacando as diferenças [em geral, com a intenção de comprovar como o alemão é incompreensível!]

Então, não vale ficar resmungando que os verbos do alemão são complicados. Se você já conseguiu aprender inglês e dominar seus tempos verbais, então não há nenhum motivo para não conseguir fazer o mesmo em alemão.

aprender alemão

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