Motivo #08: Gramática e o jogo dos sete erros

Você ainda se lembra do saudoso “Jogo dos sete erros” da sua infância?

Você saberia explicar as regras para alguém que –  coff coff! – não sabe como funciona esse jogo?

Jogo dos sete erros

Temos duas imagens quase idênticas colocadas lado a lado. A graça é encontrar as diferenças de uma imagem para outra – sempre no número cabalístico sete.

Pois bem, é muito simples, não?

Parece apenas uma brincadeira infantil e inocente. Mas você já reparou como esse joguinho lembra muito certas concepções equivocadas de gramática que rolam por ai?

Um jogo nada inocente

Agora, você deve estar levando o mouse para o X no canto do navegador e pensando: “OK, não entendo o que isso tem a ver com o alemão e nem com gramática”.

Já vou mostrar quais são os sete erros acertos entre a gramática do português e do alemão. Mas antes disso, acompanhe comigo essas observações curiosas sobre o “Jogo dos sete erros”;

  • Não é engraçado que o jogo chame de “erros” fatos que, na verdade, são apenas “diferenças” entre as imagens?
  • Quem determina qual imagem é a “correta” e qual imagem contém os “erros” as diferenças?
  • Por que uma imagem é considerada como perfeita (não contém nenhum “erro” nenhuma diferença) e outra é considerada a errada (contém todos os sete “erros” diferenças)? Os “erros” As diferenças não poderiam estar misturados entre as duas imagens?

Pois bem: essas três perguntas revelam pontos interessantes sobre como a ideia de gramática é difundida pelo senso comum. Eu sei que essa comparação pode parecer meio esdrúxula, mas ela ajuda a deixar bem claro alguns equívocos que se reproduzem por aí sobre a tão comentada “dificuldade da gramática”.

Só para mostrar como isso funciona, irei repetir as mesmas questões acima substituindo a palavra “imagens” por “línguas” – ou ainda, pela gramática das línguas.

Dá só uma olhadinha como fica:

  • Não é engraçado que o jogo chame de “erros” coisas que, na verdade, são apenas “diferenças” entre as línguas/gramáticas?
  • Quem determina qual língua/gramática é a “correta” e qual língua/gramática contém erros?
  • Por que uma língua/gramática é considerada como perfeita (não contém nenhum “erro”) e outra é considerada a errada (contém todos os sete “erros”)? Os “erros” As diferenças não poderiam estar misturados entre as duas línguas/gramáticas?

Perceba que os problemas são quase idênticos em ambos os casos. Tanto nas línguas estrangeiras quanto no jogo dos sete erros, tendemos a reproduzir as mesmas crenças básicas:

  • tomar arbitrariamente uma referência única
  • considerar como erro ou desvio qualquer coisa diferente dessa referência
  • atribuir os desvios/diferenças exclusivamente ao outro sem relativizar as características da própria referência

Uma última observação para arrematar a comparação esquisita e passar para direto para a gramática do alemão – que é o que mais interessa.

Já repararam que, na verdade, o jogo dos sete erros contém mais “acertos” do que erros – mais semelhanças do que diferenças?

Insistimos em reparar apenas nas diferenças – ou nos “erros” – mas ignoramos que elas estão mergulhadas em um oceano de semelhanças.

Guarde isso em mente. Agora pense na situação da gramática.

Gramática: o jogo das sete semelhanças

Pode parece absurdo, mas não é exatamente a mesma coisa que acontece?!

Às vezes, tropeçamos em uma diferença gramatical e já começamos a resmungar sem  perceber a vastidão de semelhanças que rodeiam as diferenças – exatamente como no “Jogo dos sete erros”.

É claro que as diferenças acabam sempre chamando mais atenção. Mas será que isso não acontece justamente por elas se destacarem sobre um fundo de similaridades?

Para demonstrar isso, resolvi então inverter o jogo dos sete erros e propor um “jogo das sete semelhanças”.

Como funciona? É muito simples.

Alistei sete tópicos em que o alemão é idêntico ao português. E se você ainda acha que algum deles é óbvio e que as coisas não poderiam ser de outra forma mesmo – bem, continue acompanhando para ver que não é bem assim.

1) Artigo+adjetivo+substantivo

Olha só, essa ordem é aceita tanto em português como em alemão. É tão natural que você nem percebeu que, na verdade, o português é mais complexo nesse ponto, pois aceita também a ordem Artigo+Substantivo+Adjetivo.

Das neue Haus = A nova casa

[det]+[adj]+[subst] = [det]+[adj]+[subst]

 

2) Conjugação de verbos em 1ª, 2ª, 3ª pessoas no singular e no plural

Se você bate o olho nas tabelas de conjugação de verbos em alemão e em português – sim, aquela que você aprendeu na sétima série – você verá facilmente que a estrutura delas segue o mesmo padrão. Para cada pronome, existe uma terminação diferente.

Já no inglês, as coisas são um pouco diferentes. Apenas a 3ª pessoa do singular [he / she / it] tem algum tipo de marcação de conjugação. As demais são idênticas e não têm nenhuma marcação.

Ou seja: nesse ponto, o alemão e o português são mais semelhantes entre si do que com o inglês!

[É curioso: as pessoas insistem em considerar o inglês mais fácil do que o alemão, mesmo que as diferenças sejam maiores!]

3) Preposições pospostas

Muita gente faz careta quando aprende expressões como meiner Meinung nach porque a preposição vem depois – e não antes. Resmungam e xingam a gramática do alemão, mas não param para ver que o português também faz isso com muita frequência: “três anos atrás“, “poucos minutos depois” entre outras possibilidades.

meiner Meinung nach = [pron.]+[subst.]+[prep.]

três anos atrás = [quant.]+[subst.]+[prep.]

4) Prefixação verbal

Corre longe a fama de que a língua alemã produz infinitos verbos novos apenas colocando e variando prefixos. Podemos pegar uma raiz verbal qualquer [nehmen, por exemplo] e prefixá-la de diversas maneiras:

  • aufnehmen
  • annehmen
  • zunehmen
  • vornehmen
  • mitnehmen
  • unternehmen
  • etc.

Cada forma tem nuances diferentes de sentido – ou até mesmo sentidos completamente diferentes! Mas isso não significa que o alemão seja uma língua especial ou exótica por conta disso. Muito pelo contrário, o português também consegue fazer isso. Talvez você apenas não tenha se dado conta!

Preste atenção em formas como:

  • compreender
  • apreender
  • depreender

Temos uma estrutura bem similar, não acha? E o que você me diz da incrível semelhança de formas como:

  • seduzir
  • conduzir
  • induzir
  • deduzir
  • abduzir

… entre tantas outras? Não é uma mera coincidência: esses verbos também se formam com uma combinação de prefixo+raiz, mesmo que no cotidiano não nos demos conta disso.

Está achando isso óbvio demais?

E se eu disser para você que várias línguas no mundo não conseguem fazer isso?

5) Metafonia verbal

OK, você não sabia que isso é um ponto em comum entre português e alemão por um motivo mais forte: você nem sequer ouviu falar nesse palavrão e não sabe o que ele significa!

Parece mirabolante, mas é muito simples. Vamos fazer um exercício simples de conjugar verbos no presente. Tomemos o verbo “escrever” em português.

Conjugando nas três primeiras pessoas – igual fazíamos na sétima série, de novo! – temos algo mais ou menos assim:

Eu escrevo

Tu escreves

Ele escreve

Agora fale em voz alta essa sequência.

Preste atenção: na primeira pessoa o “escrevo” [como “e” de “medo”] tem pronúncia fechada; enquanto na segunda e na terceira pessoa, este som é aberto: “escreve[como “é” de “café“].

É essa abertura na vogal que se chama metafonia.

No alemão, acontece a mesmíssima coisa. Conjugue o verbo schlafen e olhe o que acontece:

Ich schlafe

Du schläfst

Er schläft

Perceba que ocorre a mesma mudança de vogal (de “a” para “ä”) e em condições exatamente idênticas.

6) Casos

Nominativo, acusativo, dativo, genitivo…

Muita gente já se arrepia só de ouvir essas palavrinhas. De longe, esse é o ponto mais polêmico da gramática do alemão e que leva as pessoas a considerar o inglês mais fácil – ou o alemão mais difícil, como quer que seja.

A surpresa que você não sabia é: o português também tem caso. A única diferença é a maneira de demarcá-lo.

Em português, é incrivelmente fácil ver isso nos pronomes. Peguemos um exemplo bobo da frase “Eu te amo”. Você não se deu conta, mas os pronomes têm caso aí! Tente fazer o teste e substituí-los por algo como “Mim te amo” ou “Eu tu amo”.

Deu ruim, né?

Pois bem. se você avaliou essas frases como incorretas – assim como todos os falantes de português – então você já consegue ter uma vaga noção de como funcionam os casos na nossa língua.

É claro que esse é um tema bem mais complexo. Mas com esse teste simples já dá para provar que caso não é uma invenção mirabolante de um maníaco que “inventou” as regras da gramática do alemão.

7) Particípio presente

Esse é outro nome exótico que só viu quem já estuda alemão há um tempinho razoável.

Nos livros didáticos e gramáticas, a expressão original é Partizip Präsens e se refere a formas verbais como:

  • sprechend
  • kommend
  • weinend
  • … e todas as outras formadas com [infitnivo do verbo]+[d]

Essa forma verbal dá uma ideia de processo contínuo e, segundo rumores, não existe no português. Para mim, a pessoa que diz isso deveria levar uma multa!

Prestando bem atenção, esse tipo de construção aparece a toda hora em formas com:

  • crescente
  • minguante
  • sorridente
  • pensante
  • contribuinte
  • saltitante
  • abundante

… enfim, essas listas enumerativas nunca terminam!

E, ao contrário do que espalham por aí, eu diria que essa forma é ainda muito produtiva. Ou seja, ela não está restrita apenas a estruturas cristalizadas e pontuais dentro de uma língua.

Mas é claro que isso é apenas uma impressão pessoal e você pode tirar suas próprias conclusões fazendo o teste você mesmo!

Para concluir

Assim como no “Jogo dos sete erros”, a semelhança entre alemão e português é maior do que você imaginou.

Muitas vezes, ficamos tão concentrados em encontrar as diferenças que esquecemos do vasto universo de identidades. Graças a ele, você consegue aprender alemão, mas nem sequer sonha em aprender Yorubá, Gerogiano ou mesmo Japonês.

Mude de atitude: pare de dramatizar as diferenças e comece a olhar para as semelhanças – você irá se surpreender!

aprender alemão

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