Motivo #06: Inglês língua-franca

Feche os olhos e pense nos últimos cinco filmes ou seriados que você assistiu.Agora olhe para os eletrônicos à sua volta.

Agora compare: quantos deles estão em inglês e quantos deles estão em alemão?

Pois é: o inglês é uma língua mais presente – e não exatamente mais simples.

Inglês é o novo latim

Assim como o latim no Império Romano, o inglês hoje é a língua comum usada por pessoas nos mais diferentes cantos culturais.

O inglês já não é mais uma única língua. Ou melhor, é uma língua, mas com muitas caras diferentes. As diferenças vão muito além daquela divisão clássica entre inglês americano e inglês britânico.

Obs.: eu nunca entendi porque os Estados Unidos são a única ex-colônia britânica com direito a um rótulo linguístico próprio. Alguém aí já viu um dicionário de inglês australiano ou jamaicano? Estranho, não?

O inglês falado entre indianos difere bastante do inglês corrente na Irlanda. Por sua vez, esse é diferente do inglês aprendido por orientais – o chamado Engrish. Quem nunca riu com uma pérola dessas, que atire a primeira pedra.

O que é Engrish
[Fonte: Engrish]
O chamado BSE – bad simple english – escoa pelo mundo como água: por onde houver espaço, ele passará. Softwares distribuídos pelo mundo já dispõem duas possibilidades de idiomas de instalação: English e Simple English [ou também International English]

Que o inglês é uma língua internacional, isso todo mundo sabe.

A pergunta é: esse inglês “de todo mundo” pode ser considerado como o mesmo inglês falado por britânicos e norte-americanos? Provavelmente não.

A culpa é da gramática?

Dizem por aí que o inglês conseguiu prevalecer como “língua geral” do mundo atual por ter uma estrutura gramatical mais simples. É essa a impressão que fica quando olhamos por cima aquelas tabelas e esquemas apresentados em livros didáticos.

Mas será que a gramática do inglês é de fato mais simples? Continuaríamos com essa opinião se observássemos os detalhes – aqueles que não percebemos nem mesmo na nossa própria língua?

Ou será que fazemos vista grossa para eles? Quando um idioma se difunde – como aconteceu com o inglês – essas simplificações são inevitáveis.

Livros
[Fonte: Sketchbook Collection de Flee sob Licença CC BY-NC-SA 2.0]
Além disso, ainda precisamos relembrar aquela outra questão, mais profunda e mais polêmica: o que queremos dizer quando falamos que uma gramática é simples ou complexa?

É muito cômodo colocar nas costas da gramática toda a responsabilidade pelo “sucesso de audiência” de uma língua. Mas apenas a simplicidade gramatical é suficiente para dfundir um idioma? Ou será que não há também um empurrãozinho do prestígio econômico e cultural dos países que adotam essa língua?

Indústria cultural

Com o fim da Guerra Fria e da polarização geopolítica, os Estados Unidos saem como vencedores tanto no aspecto econômico quanto na indústria cultural.

Essa influência norte-americana marcou muito especialmente no Brasil. Cinema, música, televisão: nossos gostos e nossa cultura de consumo se orientam para os padrões norte-americanos.

Por outro lado, o poder de influência de outras culturas foi reduzido proporcionalmente – como aconteceu com a queda do prestígio do francês, por exemplo. No caso do alemão, a situação foi bem mais grave, já que a língua chegou a ser proibida por aqui.

É claro que isso tudo está ligado à hegemonia americana. É bem simples ver as consequências disso. Faça um teste rápido e responda sem pensar muito:

Quantas bandas/músicas que em inglês você conhece? Quantos filmes em inglês você conhece? Quantos seriados em inglês você conhece?

cinema americano
[Fonte: DVD Collection de James Sann sob Licença CC BY-NC-ND 2.0]
Agora faça o teste inverso:

Quantas bandas/músicas em alemão você conhece? Quantos filmes em alemão você conhece? Quantos seriados em alemão você conhece?

Não é curioso que bandas de países que não falam inglês cantem … em inglês? A situação inversa parece menos comum:

Quantas bandas americanas/britânicas cantam em outras línguas que não o inglês?Não precisa fazer muito esforço para perceber a diferença entre os números.

Se houvesse a mesma quantidade de produtos culturais em alemão como em inglês, teríamos mais recursos, mais acesso e mais familiaridade. O fato é que crescemos com botões de play e stop no controle remoto. Para corrigir um erro de digitação, apertamos delete.

Controle remoto em inglês
[Fonte: Remote control de Tiniest Tiger sob Licença CC BY-NC-ND 2.0]
A impressão que temos de que inglês é “mais fácil” do que alemão vem muito dessa abundância de recursos em inglês. Provavelmente, não acharíamos o alemão tão difícil se tivéssemos botões de abspielen e aufhören no controle remoto ou a tecla entfernen acima do Enter – que aliás se chamaria Eingabe.

No fundo, não se trata tanto da complexidade da língua, mas sim do grau de contato que temos com ela.

Para concluir

O inglês é muito mais presente no Brasil do que o alemão. Isso é fato. Mas também é fato que o inglês é muito mais presente no mundo inteiro.

E isso não acontece só por causa de questões de gramática. Aliás, a gramática é apenas uma das muitas peças desse jogo.

Como de costume, é bom se perguntar: continuaríamos achando alemão mais difícil do que inglês se…

  • … os Estados Unidos tivessem perdido a Guerra Fria?
  • … a Internet fosse criada e difundida por alemães?
  • … Hollywood ficasse na Alemanha?
  • … todos os filmes, seriados e músicas legais não fossem em inglês?

Pense em todos esses pontos da próxima vez que você conhecer uma banda diferente, baixar alugar aquele seriado legal ou acompanhar o lançamento de um novo gadget [e porque não um novo Gerät]. Se tudo isso fosse em alemão, com certeza a situação hoje seria bem diferente e não teríamos essa falsa impressão de que o inglês é uma língua fácil.

 

aprender alemão

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