Motivo #02: falar muitas línguas é ser inteligente?

Em uma conversa descontraída, sempre tem alguém que solta uma frase mais ou menos assim: “nossa, como fulano é uma pessoa inteligente, fala X línguas”.

Enquanto todo mundo se admira, eu só consigo pensar em uma coisa: “por que será que pessoas que falam mais línguas são consideradas mais inteligentes?”.

Antes de tudo, vamos combinar uma coisa desde já: essa história de “mais inteligente” é algo que precisamos deixar para trás com a maior urgência possível.

Já é mais do que sabido que existem vários tipos de inteligência: lógico-matemática, linguística, corporal, intrapessoal, interpessoal, espacial, entre outras. É claro que as classificações podem variar de acordo com cada fonte que você consultar. Mas a ideia básica é sempre a mesma:

Inteligência não é um atributo único e linear

… e mensurável – eu acrescentaria ainda.

Entendo que os pesquisadores procurem avaliar “inteligência” quantitativamente. Ainda assim, eu particularmente considero essa ideia bem esquisita.

Como as coisas funcionam para você?

Tudo bem, parece mais ou menos claro que existem tendências. Algumas pessoas parecem funcionar muito melhor em determinadas inteligências do que em outras.

Há algumas pessoas que trabalham bem com o lado racional e analítico. Outras se saem melhor em tarefas que envolvem sensibilidade. Algumas precisam analisar a situação antes de agir, enquanto outras preferem experimentar e se deixar levar pela intuição.

É difícil negar isso: as pessoas simplesmente funcionam de maneira diferente. Basta abrir bem os olhos para constatar esse fato cotidiano com as pessoas ao nosso redor. No caso do aprendizado de línguas, essas diferenças ficam incrivelmente claras na estratégia que cada aluno adota para cumprir uma tarefa.

Considerando tudo isso, fica bem mais difícil admitir pacificamente que falar várias línguas é um selo de qualidade que certifica a inteligência de alguém.

Tudo bem, uma pessoa que domine com perfeição seis idiomas pode de fato ter uma inteligência linguística mais afiada. O que não significa que ela tenha o mesmo potencial para outras áreas. Por exemplo, tarefas que exigem habilidade manual, empatia, consciência corporal entre tantas outras.

Diferentes ferramentas
Há muitas ferramentas diferentes – qual você usa melhor?
[Fonte: The Right Tool, por Emily Barney sob Licença CC BY-NC 2.0]
Existem muitos tipos de competências diferentes. As possibilidades são tantas que, sinceramente, não sei se faz sentido ficar se vangloriando por se destacar em uma única habilidade.

Falar que uma pessoa é mais inteligente porque fala muitas línguas é privilegiar apenas um tipo específico de inteligência. Automaticamente, todos os outros acabam ficando em segundo plano na nossa escala invisível de “habilidades interessantes e socialmente valorizadas”.

Esses casos são muito simples de reconhecer na prática. Uma pessoa que fala várias línguas geralmente é chamada de “inteligente”, mas isso quase nunca acontece com alguém que sabe cozinhar bem, pratica vários esportes diferentes ou persuade pessoas com facilidade.

Não deveríamos também chamar essas pessoas de “inteligente”?

Quem cozinha é inteligente
“Nossa, você cozinha vários pratos, como você é inteligente!”
[Fonte: kitchen 109 de Captain Blauberre, sob Licença CC BY-NC 2.0]

Não superestime seu cérebro

Algumas pesquisas mostram que as conexões neurais de pessoas bilíngues funcionam diferente. E isso é verdade. Há uma forte corrente de pesquisas científicas interessada em investigar o processamento neurológico em pessoas com mais de uma língua materna.

Até onde se sabe, existe de fato diferenças no funcionamento do cérebro de bilíngues. Porém, isso vale apenas para os casos em que a pessoa aprendeu dois (ou mais idiomas) ainda em fase de aquisição de linguagem.

Mas se você não aprendeu duas ou mais desde pequeno, então é melhor você deixar de lado essa história.

Mesmo no caso de crianças com mais de uma língua materna, o “nível de inteligência” ainda é bem questionável – e aí voltamos de novo para a discussão sobre múltiplas inteligências.

Bilinguismo é uma realidade mais frequente do que parece

Às vezes, falar duas ou mais línguas é uma questão de pura necessidade. Isso acontece em qualquer região de fronteiras culturais.

Em muitos países, é absolutamente comum utilizar três idiomas – um para o ambiente domeśtico, outro para o ambiente público e um terceiro reservado apenas para assuntos oficiais [geralmente, é o idioma imposto pelo Estado].

Países europeus minúsculos não tem o luxo de ter uma única língua oficial.

Mesmo os mais bem estabelecidos – como Alemanha, Itália e Espanha – precisam lidar com a variação entre dialetos regionais e a língua padrão – isso para não contar o trânsito com os idiomas dos países vizinhos.

Schilder in Straßburg
Na fronteira da Alemanha com a França, Straßburg precisa de placas nos dois idiomas. Sempre.
[Fonte: Arquivo pessoal. Direitos reservados.]
Na América Latina, é muito frequente a alternância entre o idioma oficial [espanhol] e outro idioma local de substrato indígena [quechua, guarani, zapoteca etc]. E se formos entrar no caso da Índia e da China, esse texto não vai terminar nunca!

E adivinha só? Ninguém teria a ideia de chamar todas essas pessoas de “mais inteligentes” apenas porque falam mais de uma língua, certo?

Mapa linguístico do Quechua
[ Fonte: Mapa linguístico do Quechua e variantes. Wikimedia Commons, sob Licença CC BY-SA 2.5 ]

Moral da história

Espero ter conseguido deixar claro que essa relação entre “inteligência” e falar muitas línguas não ajuda em nada no seu aprendizado.

Muito pelo contrário.

É provável que ela esteja funcionando como um bloqueio mental. Isso acontece com pessoas que desistem da empreitada de aprender alemão justificando para si mesmas que apenas pessoas “inteligentes” falam muitas línguas.

De agora em diante, você irá deixar essa desculpa para trás.

Combinado?

aprender alemão

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