“Anti-Abschiebe-Industrie” é eleita a Despalavra do Ano de 2018

Eleita a Despalavra do Ano de 2018, »Anti-Abschiebe-Industrie« é sintoma de uma tendência preocupante na discussão política na Alemanha e no mundo.

“Indústria Anti-deportação”: o dito e o subentendido

Se traduzido algo ao pé da letra em português, a Despalavra do Ano de 2018 seria algo como »Indústria Anti-Deportação«. O termo foi empregado pelo político Alexander Dobrindt para desqualificar as moções contra a deportação de refugiados, acusando-os de “sabotar os esforços do Estado de Direito” e de, com isso, “ameaçar a ordem pública”.

Atrelando a ideia de “indústria” à política migratória de acolhimento, a expressão insinua um suposto enriquecimento indevido daqueles que apoiam legalmente os asilados, como se eles lucrassem com a acolhida massiva de estrangeiros.

A declaração polêmica pode ser vista na seguinte reportagem do jornal alemão Welt.

Se essa fosse a única razão para a escolha de Anti-Abschiebe-Industrie como Despalavra do Ano de 2018, já estaria de bom tamanho.

Consequências graves

Como se isso não bastasse, certa parcela da sociedade alemã acredita fortemente que o aumento da criminalidade urbana é causado pela imigração. Ou seja, de quebra, a expressão culpa os movimentos anti-deportação de lucar com a proteção legal de refugiados que eventualmente venham a cometer delitos. Uma correlação no mínimo maliciosa que, por baixo dos panos, vai se fossilizando no debate público de maneira perigosamente silenciosa.

Membro do partido SPD, Johannes Kahrs soube apontar com clareza e no momento certo a falsidade dessa ideia quando assim declarou

»quer sejamos favoráveis ou contrários a eles, para os opositores das deportações isso não é uma questão de dinheiro«.

Ainda segundo Kahrs, essa foi uma tentativa algo desesperada (e vã) de Dobrindt conquistar eleitores da extrema-direita alemã reverberando seu discurso ultranacionalista.

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Segundo a porta-voz da iniciativa, Nina Janich, a circulação irrestrita da expressão denota uma desfiguração severa dos limites do que pode ser dito publicamente em uma democracia.

O júri do Unwort des Jahres, anunciou que, até a data-limite em 31 de Dezembro de 2018, foram enviadas mais de 500 sugestões de candidatas a Despalavra do Ano de 2018. Dessas, apenas 60 correspondiam aos critérios de seleção. Entre as 15 finalistas, constavam as expressões Sozialtourismus (»turismo social«) e Vogelschiss (»cocô de passarinho«).

Falar muitas línguas

O que é o Unwort des Jahres?

Para quem não conhece, a iniciativa Unwort des Jahres (Despalavra do ano) nasceu como um correspondente irônico ao concurso Wort des Jahres (Palavra do ano) promovido pela Gesellschaft für die deutsche Sprache (Sociedade para a língua alemã).

Em via de regra, a »Despalavra do ano« é um termo que acaba ficando marcado pelo seu uso infeliz pela mídia e pela dita opinião pública. Em boa parte dos casos, a despalavra é um eufemismo que propaga ideias antidemocráticas ou mesmo discurso de ódio mal-disfarçados.

A ideia básica é sensibilizar a população para o uso nada inocente de determinados termos pela mídia e também incentivar a discussão sobre como a escolha de palavras pode enviesar e distorcer a maneira como vemos os acontecimentos atuais no mundo.

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Lista de Despalavras do Ano

Se você achou curiosa a Despalavra do Ano de 2018, então olhe as palavras selecionadas nos anos anteriores.

Em boa parte dos casos, é difícil entender a palavrasem conhecer o contexto por trás dela. De todo modo, a lista serve como uma fotografia interessante das grandes questões que atiçaram o debate público na Alemanha.

Confira:

  • 2017: Alternatikve Fakten (Fatos alternativos)
  • 2016: Volksverräter (traidor do povo)
  • 2015: Gutmensch (altruísta)
  • 2014: Lügenpresse (Imprensa mentirosa)
  • 2013: Sozialtourismus (Turismo social)
  • 2012: Opfer-Abo (Assinatura de vítimas)
  • 2011: Döner-Morde (Assassinatos de Döner)
  • 2010: alternativlos (sem alternativa)
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